Turbilhão
E ainda por cima fazem aquelas perguntas cruéis... gente que eu não vejo há séculos ressurge das cinzas pra perguntar como eu estou. Sim, eles começam singelos. No começo eu nem desconfio. Respondo que vou bem, na esperança de que não insistam. Mas eles logo querem saber como é esse tal de bem, como se chama de verdade, que cor, cheiro e gosto ele tem. E não se contentam, até que eu acabo mostrando sua cara decrépita e meio apagada. O meu bem, é sempre um bem frágil...
E se não bastasse o inquérito sobre essa Cristina que vos escreve, ainda perguntam de outras. Creio que conheçam as antigas melhor que eu mesma. Sim, porque me confundem. Dizem coisas sobre elas que eu nunca sequer imaginei:
“Mas você gostava tanto de sopa de azul com risos de rinoceronte!”
Eu gostava?!
Alguma das Cristinas já gostou !?
“E a poesia?”, “Tem escrito muito?”,
Pouco? Raso? Morto?
“Você agora vai ser patologista?! Mas não era pra ser psiquiatra?!”
“E os planos pro futuro?”, sim!, porque com certeza a Cristina de hoje tem um monte de planos pra Cristina de amanhã. E com mais certeza ainda a Cristina de amanhã cumprirá religiosamente o traçado da Cristina de ontem. E a Cristina de hoje está muito entusiasmada com os planos e as dimensões todas.
Tento me justificar... porque estou cansada e meu estômago gira na roda gigante. Falo que estou vivendo um período de mudanças. Evoco a palavra turbilhão! Já estou quase escapando! Mas então, um deles, logicamente uma mulher, me segura pelos calcanhares, faz uma pergunta ainda mais doce e desinteressada que todas as outras: “Como vai a senhora sua mãe?”
“Como vai?”, “A sua mãe”, “a sua”, “como vai”, “mãe” ?! A pergunta sibila, ressoa, faz eco, estou descomposta, a ponto de romper em lágrimas. “Vai bem!”, a voz quase não sai, “...turbilhão...” roda gigante, uma vertigem, me segura!, me solta!, fugir!
Adoeço, não adulteço.
A mulher me executa:
“Você vive de turbilhões!!!
Esse é um, entre outros dois!”
Cristina Maria de Medeiros,
23 de junho de 2006
Pra Valdeniza e Jorge Pedro
E se não bastasse o inquérito sobre essa Cristina que vos escreve, ainda perguntam de outras. Creio que conheçam as antigas melhor que eu mesma. Sim, porque me confundem. Dizem coisas sobre elas que eu nunca sequer imaginei:
“Mas você gostava tanto de sopa de azul com risos de rinoceronte!”
Eu gostava?!
Alguma das Cristinas já gostou !?
“E a poesia?”, “Tem escrito muito?”,
Pouco? Raso? Morto?
“Você agora vai ser patologista?! Mas não era pra ser psiquiatra?!”
“E os planos pro futuro?”, sim!, porque com certeza a Cristina de hoje tem um monte de planos pra Cristina de amanhã. E com mais certeza ainda a Cristina de amanhã cumprirá religiosamente o traçado da Cristina de ontem. E a Cristina de hoje está muito entusiasmada com os planos e as dimensões todas.
Tento me justificar... porque estou cansada e meu estômago gira na roda gigante. Falo que estou vivendo um período de mudanças. Evoco a palavra turbilhão! Já estou quase escapando! Mas então, um deles, logicamente uma mulher, me segura pelos calcanhares, faz uma pergunta ainda mais doce e desinteressada que todas as outras: “Como vai a senhora sua mãe?”
“Como vai?”, “A sua mãe”, “a sua”, “como vai”, “mãe” ?! A pergunta sibila, ressoa, faz eco, estou descomposta, a ponto de romper em lágrimas. “Vai bem!”, a voz quase não sai, “...turbilhão...” roda gigante, uma vertigem, me segura!, me solta!, fugir!
Adoeço, não adulteço.
A mulher me executa:
“Você vive de turbilhões!!!
Esse é um, entre outros dois!”
Cristina Maria de Medeiros,
23 de junho de 2006
Pra Valdeniza e Jorge Pedro
