segunda-feira, maio 15, 2006

O Vestido de Maristânea - parte II

O único que não compareceu ao cortejo foi Seu Amador, pai de Maristânea. Aproveitou para se refugiar no quarto secreto em que guardava suas riquezas e seus fetos machos embalsamados. Em toda vida, com todas as mulheres com que se deitou, só conseguiu que vingassem as fêmeas. Seus filhos machos morriam no ventre, por vontade de Deus ou mandinga dos inimigos, com menos de dois meses de gestação. Contava os centavos que faltavam para o pagamento dos empregados do armazém, dos peões e do cabra que lhe salvara a vida em mais de duas oportunidades. E pensava baixo, para não acordar seus filhos colhões, nas duas grandes certezas da vida: a morte e a solidão.

Escrito por Fabiano Novais

segunda-feira, maio 08, 2006

Mulheres de terra natal - II

A dona Maria não tem falhas na dentição. Na verdade usa dentaduras desde que completou 28 anos de idade. Mesmo assim não sorri mostrando os dois fios de ouro, já tão fora de moda nos dias de hoje.
A dona Maria ainda não completou os cinquenta no calendário que conta os anos, nunca teve plano de saúde ou aposentadoria, mas hoje começou a pagar as parcelas de seu plano funerário.
A cobertura é modesta como a dona. O caixão, ou melhor dizendo, a urna funerária, não tem visor, mas pode ser que seja melhor assim. Encarar os olhos cerrados de um morto é como ter a certeza de que os nossos não se abrirão nunca mais. As flores são artificiais, e o plano não especifica a cor. Mas são garantidos 20 pãezinhos de sal, 15 de doce, 300 gramas de margarina e meio quilo de café.
E o plano também estende sua cobertura e dá segurança aos filhos de dona Maria, ou melhor dizendo, à filha única, desde que não se case, ou estabeleça qualquer união estável, antes de morrer.

escrito por Cristina Maria de Medeiros