sábado, abril 29, 2006

O Vestido de Maristânea

Quando o padre Anatólio colocou os dois pés no chão de pedras polidas, uma chuva mansa e tranqüila anunciou a abertura da porta dos céus para Anelise. Maristânea não conseguia se concentrar em nada, pois não tirara os olhos de cima da amiga vestida de noiva de Jesus naquele caixão de flores amarelas. Seria uma mentirosa, pois Deus sabe tudo, mesmo o mais escondido. E ele viu quando o Virgílio a levou pra trás da mangueira naquela tarde, e como ele fez que era só um beijo, depois outro e quando não sentia mais os pés no chão e não queria mais voltar, porque tudo o que mais desejava naquela hora era que não acabasse aquilo nunca. E Deus sabia. E ia se apresentar a ele com vestido branco e uma cara de mentirosa. E foi nessa hora que começou a escutar o choro de vergonha de Anelise, que era sua amiga e sabia que era atrás do pé de manga que o mundo começava. E sentiu o maior medo da sua vida, ser enterrada com vestido de noiva.

escrito por Fabiano Novais