Mauro não sabe cuidar de cachorros. Certa feita adotou dois vira-latas. Eram pequeninos, tinham orelhas compridas e tiritavam de frio... ou medo. Olhos grandes, focinho gelado, língua macia e quente.
Comiam das rações que se vende nos supermercados, mas o que os crescia era a papa especial que Mauro mesmo fabricava. Era feita com leite e canjiquinha.
Os bichos foram ganhando patas fortes. E os olhos escuros abanavam os rabos que eram chicotes derrubando jarros. De puro brinquedo destruíram os móveis, olhando fixamente nos olhos de Mauro. Aboletaram-se em sua cama, pisotearam as flores e os canteiros de couve.
Numa manhã de muito sol, Mauro encheu suas barriguinhas com a melhor papa do mundo e apertou-se com eles dentro do fusquinha. Por um minuto olhou sem contrariações os estofados rasgados pelas unhas dos amigos e partiu pro Ribeirão do Eixo.
Passearam o dia inteiro chapinhando nas lagoas; livres de jarros, móveis, livros e discos. No meio de um cochilo de feras Mauro abandonou os antigos filhotes. De noite choveu, e não houve ração, tampouco a papa de leite e canjiquinha.
Mauro não sabe cuidar de cachorros. Mesmo assim Alice lhe entregaria numa bandeja de prata seu coração de cadela.
Alice sabe que o amor deita raízes grossas que podem abalar os alicerces de uma casa.
Alice não conhece os alicerces da casa de Mauro, mas sabe que são bem altos. Feitos de concreto e aço. Mauro os construiu assim por causa da umidade...
O coração de Alice pulsa com força contra a dureza dos alicerces. Pulsa feito bicho, cão sem dono, tiritando na noite do ribeirão.
Cristina Medeiros
São Gonçalo do Bação, fevereiro de 2006
Comiam das rações que se vende nos supermercados, mas o que os crescia era a papa especial que Mauro mesmo fabricava. Era feita com leite e canjiquinha.
Os bichos foram ganhando patas fortes. E os olhos escuros abanavam os rabos que eram chicotes derrubando jarros. De puro brinquedo destruíram os móveis, olhando fixamente nos olhos de Mauro. Aboletaram-se em sua cama, pisotearam as flores e os canteiros de couve.
Numa manhã de muito sol, Mauro encheu suas barriguinhas com a melhor papa do mundo e apertou-se com eles dentro do fusquinha. Por um minuto olhou sem contrariações os estofados rasgados pelas unhas dos amigos e partiu pro Ribeirão do Eixo.
Passearam o dia inteiro chapinhando nas lagoas; livres de jarros, móveis, livros e discos. No meio de um cochilo de feras Mauro abandonou os antigos filhotes. De noite choveu, e não houve ração, tampouco a papa de leite e canjiquinha.
Mauro não sabe cuidar de cachorros. Mesmo assim Alice lhe entregaria numa bandeja de prata seu coração de cadela.
Alice sabe que o amor deita raízes grossas que podem abalar os alicerces de uma casa.
Alice não conhece os alicerces da casa de Mauro, mas sabe que são bem altos. Feitos de concreto e aço. Mauro os construiu assim por causa da umidade...
O coração de Alice pulsa com força contra a dureza dos alicerces. Pulsa feito bicho, cão sem dono, tiritando na noite do ribeirão.
Cristina Medeiros
São Gonçalo do Bação, fevereiro de 2006

1 Comments:
você continua dando um banho... contista de primeira, parabéns.
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