domingo, junho 04, 2006

Mauro não sabe cuidar de cachorros. Certa feita adotou dois vira-latas. Eram pequeninos, tinham orelhas compridas e tiritavam de frio... ou medo. Olhos grandes, focinho gelado, língua macia e quente.
Comiam das rações que se vende nos supermercados, mas o que os crescia era a papa especial que Mauro mesmo fabricava. Era feita com leite e canjiquinha.
Os bichos foram ganhando patas fortes. E os olhos escuros abanavam os rabos que eram chicotes derrubando jarros. De puro brinquedo destruíram os móveis, olhando fixamente nos olhos de Mauro. Aboletaram-se em sua cama, pisotearam as flores e os canteiros de couve.
Numa manhã de muito sol, Mauro encheu suas barriguinhas com a melhor papa do mundo e apertou-se com eles dentro do fusquinha. Por um minuto olhou sem contrariações os estofados rasgados pelas unhas dos amigos e partiu pro Ribeirão do Eixo.
Passearam o dia inteiro chapinhando nas lagoas; livres de jarros, móveis, livros e discos. No meio de um cochilo de feras Mauro abandonou os antigos filhotes. De noite choveu, e não houve ração, tampouco a papa de leite e canjiquinha.
Mauro não sabe cuidar de cachorros. Mesmo assim Alice lhe entregaria numa bandeja de prata seu coração de cadela.
Alice sabe que o amor deita raízes grossas que podem abalar os alicerces de uma casa.
Alice não conhece os alicerces da casa de Mauro, mas sabe que são bem altos. Feitos de concreto e aço. Mauro os construiu assim por causa da umidade...
O coração de Alice pulsa com força contra a dureza dos alicerces. Pulsa feito bicho, cão sem dono, tiritando na noite do ribeirão.


Cristina Medeiros
São Gonçalo do Bação, fevereiro de 2006

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

você continua dando um banho... contista de primeira, parabéns.

11:52 AM  

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