sexta-feira, junho 23, 2006

Turbilhão

E ainda por cima fazem aquelas perguntas cruéis... gente que eu não vejo há séculos ressurge das cinzas pra perguntar como eu estou. Sim, eles começam singelos. No começo eu nem desconfio. Respondo que vou bem, na esperança de que não insistam. Mas eles logo querem saber como é esse tal de bem, como se chama de verdade, que cor, cheiro e gosto ele tem. E não se contentam, até que eu acabo mostrando sua cara decrépita e meio apagada. O meu bem, é sempre um bem frágil...
E se não bastasse o inquérito sobre essa Cristina que vos escreve, ainda perguntam de outras. Creio que conheçam as antigas melhor que eu mesma. Sim, porque me confundem. Dizem coisas sobre elas que eu nunca sequer imaginei:
“Mas você gostava tanto de sopa de azul com risos de rinoceronte!”
Eu gostava?!
Alguma das Cristinas já gostou !?
“E a poesia?”, “Tem escrito muito?”,
Pouco? Raso? Morto?
“Você agora vai ser patologista?! Mas não era pra ser psiquiatra?!”
“E os planos pro futuro?”, sim!, porque com certeza a Cristina de hoje tem um monte de planos pra Cristina de amanhã. E com mais certeza ainda a Cristina de amanhã cumprirá religiosamente o traçado da Cristina de ontem. E a Cristina de hoje está muito entusiasmada com os planos e as dimensões todas.
Tento me justificar... porque estou cansada e meu estômago gira na roda gigante. Falo que estou vivendo um período de mudanças. Evoco a palavra turbilhão! Já estou quase escapando! Mas então, um deles, logicamente uma mulher, me segura pelos calcanhares, faz uma pergunta ainda mais doce e desinteressada que todas as outras: “Como vai a senhora sua mãe?”

“Como vai?”, “A sua mãe”, “a sua”, “como vai”, “mãe” ?! A pergunta sibila, ressoa, faz eco, estou descomposta, a ponto de romper em lágrimas. “Vai bem!”, a voz quase não sai, “...turbilhão...” roda gigante, uma vertigem, me segura!, me solta!, fugir!

Adoeço, não adulteço.
A mulher me executa:
“Você vive de turbilhões!!!
Esse é um, entre outros dois!”




Cristina Maria de Medeiros,
23 de junho de 2006


Pra Valdeniza e Jorge Pedro

segunda-feira, junho 12, 2006

O Vestido de Maristânea - conto completo

Quando o padre Anatólio colocou os dois pés no chão de pedras polidas, uma chuva mansa e tranqüila anunciou a abertura da porta dos céus para Anelise. Maristânea não conseguia se concentrar em mais nada, pois não tirara os olhos de cima da amiga vestida de noiva de Jesus naquele caixão de flores amarelas. Seria uma mentirosa, pois Deus sabe tudo, mesmo o mais escondido. E ele viu quando o Virgílio a levou pra trás da mangueira naquela tarde, e como ele fez que era só um beijo, depois outro e quando não sentia mais os pés no chão e não queria mais voltar, porque tudo o que mais desejava naquela hora era que não acabasse aquilo nunca. E Deus sabia. E ia se apresentar a ele com vestido branco e uma cara de mentirosa. E foi nessa hora que começou a escutar o choro de vergonha de Anelise, que era sua amiga e sabia que era atrás do pé de manga que o mundo começava. E sentiu o maior medo da sua vida, ser enterrada com vestido de noiva.
O único que não compareceu ao cortejo foi Seu Amador, pai de Maristânea. Aproveitou para se refugiar no quarto secreto em que guardava suas riquezas e seus fetos machos embalsamados. Em toda vida, com todas as mulheres com que se deitou, só conseguiu que vingassem as fêmeas. Seus filhos machos morriam no ventre, por vontade de Deus ou mandinga dos inimigos, com menos de dois meses de gestação. Contava os centavos que faltavam para o pagamento dos empregados do armazém, dos peões e do cabra que lhe salvara a vida em mais de duas oportunidades. E pensava baixo, para não acordar seus filhos colhões, nas duas grandes certezas da vida: a morte e a solidão.
E, de repente, tudo ficou claro. Como numa iluminação pagã, Maristânea via a todos: dona Evelásia carregando seu filho escolar em suas roupas de boneca; os irmãos Albuquerque, gêmeos idênticos, exceto pelo mais velho gostar de homens, o que causava milagrosos estigmas no segundo, que era o coroinha preferido do pároco; Luanda, a dona da pensão, em cuja cama o padre Anatólio costumava aparecer sem camisas nas noites em que o calor se tornava insuportável e o sonambulismo o dominava; e Antônia, a amante eterna do seu pai. Maristânea compreendeu que todos, suas diferenças, excentricidades, tudo era para tentar enganar o inevitável. Uma existência sem sentido, perdida entre as montanhas do vale e destinada a ser enterrada e a virar esterco para esse ciclo de coisa alguma que era a vida em Estrela. E uma sensação estranha e inédita se apoderou dela. Um estado de espírito que não podia ser outra coisa senão o sentimento de liberdade, capaz de livrar-lhe do medo mais íntimo e universal do ser humano, o medo da morte.

No domingo ia para Valadares completar seus estudos. Arrumava as malas com seus olhos de natal. Devia tudo a Anelise e aos presságios de Dona Mercês, que viu as duas amigas de infância num trem azul comendo nuvens açucaradas, o que ela logo relacionou com a morte e preveniu sua mãe, uma católica fervorosa que nunca deixou de seguir os conselhos da velha bruxa.

— Você não vai mais – disse a mãe de Maristânea, puxando seu braço com força para perto de si – não no mesmo ônibus que essa puta!
Antônia permanecia quieta, olhando tudo de cima do carro. E era com esse olhar que matava a cada dia, a cada encontro, a esposa de Seu Amador. Porque amante tinha de se envergonhar, tinha de ter aquele olhar fugidio e culpado das cadelas pedintes como ela. Mas essa não! Seu olhar superior dizia que a culpa era da esposa religiosa que não beijava com a boca aberta, que não procurava a força do seu homem nas noites quentes, nos lençóis úmidos de desejo e que não aplacava com a boca, a buceta, ou seja lá o que for, aquele pedaço de carne infame que queria derrubar tudo o que encontrava pela frente, para saciar sua fúria colossal. E Dona Marta se mortificava a cada dia, imaginando o que ela fazia com seu marido naquele quarto de periferia, quando Seu Amador não voltava pra casa. Nessas noites, ela rolava na cama até o amanhecer, se mortificando. E quando encontrava a amante no outro dia, de vestido solto, sorriso cerrado, olhar de matrona, queria que a puta morresse. Era esse olhar superior, esse sorriso vitorioso que Dona Marta não agüentava e era por isso que a filha não iria viajar no mesmo carro que aquela vadia.
— E que essa carroça vire e te mande para o inferno, sua desgraçada!


Mas era impossível tentar evitar o que os presságios de Dona Mercês vaticinavam. E o carro que virou foi o que levava Maristânea. E a pobre menina já se encontrava de vestido de noiva dentro de seu caixãozinho branco quando o sol esturricava as almas do cemitério de Estrela. Um sol tão forte que algumas das senhoras de maior respeito da cidade, protegidas por seus chapéus de casamento, não deixavam de cochichar que era mesmo verdade que Seu Amador tinha vendido a alma da filha para conseguir tanta riqueza. E que a falta de chuva no cortejo era um aviso. Coitada da menina, tão boazinha, nunca vai descansar em paz por culpa do pai. Mas quando os primeiros passos foram dados pelo padre em direção ao cemitério, uma nuvem escureceu o dia e o vento que a acompanhava levantou algumas saias por onde passou e uma chuva torrencial, como há muito não se via, desabou sobre o cortejo e desceu sobre todos como que um aviso divino ou como que para lavar as pedras do chão.


Escrito por Fabiano Novais – junho de 2006

domingo, junho 04, 2006

Mauro não sabe cuidar de cachorros. Certa feita adotou dois vira-latas. Eram pequeninos, tinham orelhas compridas e tiritavam de frio... ou medo. Olhos grandes, focinho gelado, língua macia e quente.
Comiam das rações que se vende nos supermercados, mas o que os crescia era a papa especial que Mauro mesmo fabricava. Era feita com leite e canjiquinha.
Os bichos foram ganhando patas fortes. E os olhos escuros abanavam os rabos que eram chicotes derrubando jarros. De puro brinquedo destruíram os móveis, olhando fixamente nos olhos de Mauro. Aboletaram-se em sua cama, pisotearam as flores e os canteiros de couve.
Numa manhã de muito sol, Mauro encheu suas barriguinhas com a melhor papa do mundo e apertou-se com eles dentro do fusquinha. Por um minuto olhou sem contrariações os estofados rasgados pelas unhas dos amigos e partiu pro Ribeirão do Eixo.
Passearam o dia inteiro chapinhando nas lagoas; livres de jarros, móveis, livros e discos. No meio de um cochilo de feras Mauro abandonou os antigos filhotes. De noite choveu, e não houve ração, tampouco a papa de leite e canjiquinha.
Mauro não sabe cuidar de cachorros. Mesmo assim Alice lhe entregaria numa bandeja de prata seu coração de cadela.
Alice sabe que o amor deita raízes grossas que podem abalar os alicerces de uma casa.
Alice não conhece os alicerces da casa de Mauro, mas sabe que são bem altos. Feitos de concreto e aço. Mauro os construiu assim por causa da umidade...
O coração de Alice pulsa com força contra a dureza dos alicerces. Pulsa feito bicho, cão sem dono, tiritando na noite do ribeirão.


Cristina Medeiros
São Gonçalo do Bação, fevereiro de 2006

segunda-feira, maio 15, 2006

O Vestido de Maristânea - parte II

O único que não compareceu ao cortejo foi Seu Amador, pai de Maristânea. Aproveitou para se refugiar no quarto secreto em que guardava suas riquezas e seus fetos machos embalsamados. Em toda vida, com todas as mulheres com que se deitou, só conseguiu que vingassem as fêmeas. Seus filhos machos morriam no ventre, por vontade de Deus ou mandinga dos inimigos, com menos de dois meses de gestação. Contava os centavos que faltavam para o pagamento dos empregados do armazém, dos peões e do cabra que lhe salvara a vida em mais de duas oportunidades. E pensava baixo, para não acordar seus filhos colhões, nas duas grandes certezas da vida: a morte e a solidão.

Escrito por Fabiano Novais

segunda-feira, maio 08, 2006

Mulheres de terra natal - II

A dona Maria não tem falhas na dentição. Na verdade usa dentaduras desde que completou 28 anos de idade. Mesmo assim não sorri mostrando os dois fios de ouro, já tão fora de moda nos dias de hoje.
A dona Maria ainda não completou os cinquenta no calendário que conta os anos, nunca teve plano de saúde ou aposentadoria, mas hoje começou a pagar as parcelas de seu plano funerário.
A cobertura é modesta como a dona. O caixão, ou melhor dizendo, a urna funerária, não tem visor, mas pode ser que seja melhor assim. Encarar os olhos cerrados de um morto é como ter a certeza de que os nossos não se abrirão nunca mais. As flores são artificiais, e o plano não especifica a cor. Mas são garantidos 20 pãezinhos de sal, 15 de doce, 300 gramas de margarina e meio quilo de café.
E o plano também estende sua cobertura e dá segurança aos filhos de dona Maria, ou melhor dizendo, à filha única, desde que não se case, ou estabeleça qualquer união estável, antes de morrer.

escrito por Cristina Maria de Medeiros

sábado, abril 29, 2006

O Vestido de Maristânea

Quando o padre Anatólio colocou os dois pés no chão de pedras polidas, uma chuva mansa e tranqüila anunciou a abertura da porta dos céus para Anelise. Maristânea não conseguia se concentrar em nada, pois não tirara os olhos de cima da amiga vestida de noiva de Jesus naquele caixão de flores amarelas. Seria uma mentirosa, pois Deus sabe tudo, mesmo o mais escondido. E ele viu quando o Virgílio a levou pra trás da mangueira naquela tarde, e como ele fez que era só um beijo, depois outro e quando não sentia mais os pés no chão e não queria mais voltar, porque tudo o que mais desejava naquela hora era que não acabasse aquilo nunca. E Deus sabia. E ia se apresentar a ele com vestido branco e uma cara de mentirosa. E foi nessa hora que começou a escutar o choro de vergonha de Anelise, que era sua amiga e sabia que era atrás do pé de manga que o mundo começava. E sentiu o maior medo da sua vida, ser enterrada com vestido de noiva.

escrito por Fabiano Novais